segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Monsieur Clauzon, o "parisiense" gentil

E eu que já tinha preparado a sequência de músicas para as cinco horas de viagem,  fui surpreendido. Em vez de desfrutar os novos discos dos septuagenários David Gilmour e Keith Richards, tive a grata surpresa de conhecer o Monsieur Clauzon, 82 anos!

Monsieur Clauzon é uma dessas pessoas com uma história riquíssima, filhos de pais franceses, nasceu no Vietnã e só veio à França aos quinze anos de idade. 

Chegou no trem tranquilamente, me cumprimentou, sentou ao meu lado e começou a puxar papo. Eu respondi educadamente, mas estava mesmo com a cabeça nas músicas que iria ouvir. Monsieur Clauzon insistiu educadamente em conversar (características pouco presente nos parisienses que encontramos por ai), tirei os fones do ouvido e embarquei na viagem dele...

Foram cinco horas de conversa sobre vida, morte, viagens, filhos, imigrantes, futebol (como ele conhece bem o tema) e sua maior paixão: a fusão à frio. Ele falou sobre o tema de uma forma apaixonada e me mostrava dados e nomes de pessoas manuseando com desenvoltura seu smartphone! Por fim, minha filha ainda ganhou um presente (um jogo que não sei muito bem como funciona ou se é para sua idade).

A serenidade do Monsieur Clauzon me chamou muita atenção, assim como a sua frustração. Ele havia descoberto a tal fusão tardiamente e, segundo ele, não estaria mais presente nesse mundo quando ela se tornasse uma realidade.

- Comecei tarde demais. Fiz tanta coisa, mas essa que pode mudar o destino da humanidade, eu comecei tarde demais - Disse tranquilamente o Monsieur Clauzon.

Eu fiquei ali olhando aquele senhor. Eu estava surpreso e pensando um monte de coisa ao mesmo tempo...


Monsieur Clauzon vai deixar esse mundo, se cedo ou tarde, eu não sei. É provável que eu nunca mais tenha notícias dele ou que a fusão não passe de experiências dentro de um laboratório, mas a lembrança daqueles cinco horas entre Toulouse e Paris ficarão guardadas. 

- Muito obrigado pela agradável viagem Monsieur Clauzon - Assim eu me despedi. 
- Aproveite a vida - respondeu ele.  


domingo, 4 de outubro de 2015

Sob influência de Keith


Nos primeiros minutos do filme, escutando um blues, Keith pega um copo com whisky. Pausei! Imediatamente fui uma dose pra mim também. Isso é coisa pra se assistir com whisky...
  
Keith Richards, a persona quase indestrutível que conhecemos está lá! Com todos os seus maneirismos ao tragar um cigarro, andar com os ombros "soltos", falar como se as palavras não fossem sair e tocando na guitarra como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo (para ele, parece ser).

Londres, Chicago, Nashville, Nova York... Muddy Waters, Howlin' Wolf, Chucky Berry, Rolling Stones X-pensive Winos... Blues, rock, country, reggae... Keith não é indestrutível, certamente. Percebe-se a força dos anos em seu rosto e suas mão.

Porém, diferente do seu livro Vida, o documentário não procura apresenta um lado desconhecido de Keith, parece mais uma tentativa de mostrá-lo assim como ele é. Pode ser uma boa introdução para quem nunca o viu fora dos Stones, mas certamente é excelente para quem já está familiarizado com sua imagem. Ver Keith fora dos Stones é a melhor maneira de tentar entendê-lo e, principalmente, perceber a força criativa por trás da banda.

- Parece que quando você era jovem você queria ser como um desses caras (bluseiros como Muddy Waters) e agora você é - diz um entrevistador.  
- Sim, eu sei - com um olhar indescritível...

Esta é uma das cenas finais e diz muito mais sobre Keith o que os 70 minutos de Under influence. O documentário termina e eu estou sob influência de Keith e Whisky! 

sábado, 22 de agosto de 2015

Tem que ser julgado, avaliado, rotulado, carimbado se quiser voar...e se quiser outras coisas também

Oh cara, toca Raul!!!!!  Não sei exatamente se você já ouviu esta frase ou variante dela em algum bar que você já frequentou, eu já , e não foi pouco. Mas por que razão citar  Raulzito no caput do texto? Bem, é simples. O ano provavelmente era 1983 e eu tinha 4 anos, sei que foi a primeira vez vi isso naquele programa infantil e lá estava Raul Seixas, não sabia quem era ele, mas lembro-me bem da música e depois revi as imagens no YouTube (sempre ele para ajudar a revirar as profundezas de nossas almas e memórias. Contudo, como diz a imortal frase de Connan “Mas isso é outra história...”)

Voltemos então ao assunto original. Obviamente, em minha mente algumas frases referentes à música citada ficaram registradas em minha memória infantil e me acompanham até hoje, ainda mais quando converso com o Sid (dono deste blog). Umas destas frases são “...Tem que ser selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado se quiser voar! Se quiser voar....” e a outra “Mas já pro seu foguete viajar pelo universo, é preciso meu carimbo dando o sim, sim, sim, sim”. E é a partir daí que realmente começo este texto. Desculpe ter sido prolixo.

De volta para o futuro, ou melhor dizendo para o presente e/ou talvez para o passado recente, tenho com frequência lido os comentários na internet relacionados a política e outros assuntos um pouco menos densos também. Sim, tenho optado por preferir os comentários e não necessariamente o conteúdo jornalístico.

Assim, estas leituras remetem à minha época de estudante em uma universidade federal no Rio Grande do Sul há 13 anos. Era um período em que algumas expressões passaram a fazer parte do meu cotidiano e eu, naquela época , ainda não sabia muito bem o que elas significavam.

Era curioso ouvir algumas pessoas, a maioria delas na verdade, fazer uso de expressões como reacionário, conservador, neo liberal de merda, ditador sem que elas mesmas nem soubessem muito bem o que significava isso, mas ok, melhor era guardar pra mim essas opiniões. Afinal, aqueles genuínos democratas não iriam mesmo querer aceitar o contraditório. Outra coisa curiosa também, era ouvir comentários e olhares de desprezo e reprovação quando argumentava coisas do tipo “ué, mas qual o problema do cara ser rico, mesmo que seja o George Soros?” ou então “Mas vocês não acham que o problema não é o capitalismo, o problema é sim o que ALGUNS SERES HUMANOS fazem com ele?" Confesso, creio que ali começava a nascer em mim uma simpatia por algumas ideias de Max Weber sem mesmo conhecê-lo, imagina a “heresia" estudar Weber na Geografia e esta aversão não viria dos Professores - constantemente chamados de “de direita” por aqueles que simpatizavam com o barbudinho e leram o Autor pelos lábios dos outros e pelas orelhas. Não as orelhas dos livros mas pelo que foi dito a eles que o autor escreveu..

Obviamente, minha inocência e/ou burrice, não me fazia perceber que dizer isso num curso de Ciências Humanas, cheio de defensores de um certo barbudo nascido na Alemanha e amigo de Engels , certamente iria me causar vários problemas. E de certa forma causaram, mas foda-se, na atualidade acho graça disso.

O fato é, terminei a graduação, emendei no Mestrado e hoje, treze anos após iniciar minha graduação as mesmas palavras estão bombando pela web ( reacionário, conservador, neo liberal de merda , ditador, alienado - sendo que nestes casos, os adjetivos se referiam somente a quem não colocava uma camisa de CHE ou  não andava barbudo, a barba não podia ser por  desleixo, preguiça ou vontade de não tirá-la. Mas por ideologia, sempre) e assim, lembro-me de um momento em que na Universidade, um colega me disse que era exatamente isso que Raul dizia e nós éramos crianças para entender.

Como disse Raul, tem que ser julgado, avaliado, rotulado, carimbado se quiser voar... e  também, se não quiser se meter em discussões que não interessam a você por julgar perda de tempo ou por discordar daqueles que sabem resolver os problemas do mundo, mas que muitas vezes não conseguem organizar uma lista de prioridades no cotidiano, independente da posição política e ou partidária.

Agora deixa eu ir embora. Afinal tenho que fazer a revolução ou mudar o país, você escolhe sua frase preferida. Mas espero que ela (a revolução e/ou a mudança) não chegue na hora marcada. Afinal, não deu tempo de ir ao shopping comprar minha camisa da seleção brasileira e/ou arrumar com os “companheiro” uma bandeira de movimento social (sabe que esqueci de fazer uma lista com as minhas prioridades de hoje). Claro, durante a manifestação eu vou postar tudo no Insta, meu smartphone, eu sempre levo comigo para postar fotos nas baladas e nas manifestações. Com o perdão da redundância.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Adeus ao Geógrafo!

Eu conheci geógrafos fantásticos. Tive e tenho o privilégio de conviver com mentes brilhantes. Até hoje uma das coisas que mais me orgulham é ter sido avaliado na banca de Mestrado por Manuel Correia de Andrade.

Mas hoje é um dia triste... Faleceu o geógrafo brasileiro que mais admiro, ou admirava porque ele não está mais aqui... Não, sempre irei admirar!

Eu o conheci num evento em 2005 em Recife. Eu, timidamente, levava um livro escrito por ele que era a base da minha dissertação. Ele me recebeu de maneira muito cordial e perguntou meu nome. Eu disse "Sidclay". Ele riu e me contou uma história de como os pais dos anos setenta haviam colocado nomes estranhos em seus filhos... Até hoje conto essa história.

A partir daquele momento, estreitamos os laços. Estive em São Paulo e ele me recebeu na USP, conversamos sobre um possível doutorado, ele não só me aceitou como me disse que eu já poderia me inscrever na próxima seleção, três meses depois. Ainda abriu as portas da universidade para mim e me apresentou outros estudantes... Fatidicamente não passei na seleção daquele ano, quem mandou não saber espanhol? Fiquei frustrado. 

Mas as coisas continuaram, meses depois, eu já professor universitário, fui participar de um evento na USP. Ele, mais uma vez me recebeu e conversamos longamente sobre geografia, experiências acadêmicas, metodologias, possibilidades... Desde então sempre mantivemos contato por email porque eu nunca tive coragem de ligar para ele, mesmo tendo seu número. Era difícil estar tão próximo do meu símbolo acadêmico. 

Para mim, Antonio Carlos Robert Moraes foi um exemplo de geógrafo engajado, extremamente competente, um enorme influenciador, uma referência imprescindível para quem quer entender o Brasil e, principalmente, um ser humano fantástico. Estava tão acima da média e mantinha os pés no chão sendo simples com todos, não importava se era um "ban ban ban" ou simples estudante de graduação.

Tenho todos os seus livros aqui. Eu os cito todo o tempo. A ideia do meu doutorado surgiu de um texto seu: "Sertão, um outro geográfico"... e sempre me recordo dele dizendo "A Geografia Histórica é a minha cachaça"!

Foi embora a minha maior referência em geografia, mas fica a lembrança e seus livros...

Adeus, Tonico!

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Smells like Cássia Eller

Vendo o documentário Cássia, lembrei de um grande amigo me dizendo lá nos anos 90:

- Sid, tu conhece Cássia Eller?
- Não
- Porra, ela é foda... tem que ouvir...
- Vou dar uma sacada...

E daí nunca mais voltei...Ela morreu, mas quase todo mundo que escuto já morreu mesmo, não faz diferença... Cássia marcou um período de muitas mudanças na minha vida e creio que por isso, pertence às minhas listas emocionais.

O documentário é mais um desses que não trazem nada de novo, tipo aquele extra do dvd. As imagens são raras, pelo menos eu acho. A edição com os vários recortes de fotos e vídeos mostra um enorme cuidado. Um documentário pro grande público... Mais do mesmo....

Eu queria mesmo é entender a artista, saber porque ela era como era, como escolhia as músicas, como as transformava... Isso o documentário não tem. Parece uma propaganda da Cássia, do tipo que ela não gostaria de ter e com um final quase melodramático por causa da tutela do seu filho...

Mas esse é meu lado racional...

No fundo, eu adorei! Foram quase duas horas de Cássia e isso eu não tinha desde quando a vi ao vivo. É bom rever Cássia, é bom lembrar de como eu acompanhava cada lançamento seu.

E Cássia... como você faz falta...


quarta-feira, 18 de março de 2015

Soneto na madrugada



Foram nos últimos anos do século passado que me agarrei definitivamente à madrugada. Eu já era apaixonado por ela, mas me sentia culpado porque dormir de dia era algo de preguiçoso... 

Mas em algum momento depois de 1997 eu já estava bem habituado a dormir depois das quatro da manhã (sempre antes do sol começar a nascer) e acordar lá pelas 11 da manhã. Meu dia começava mesmo ao meio-dia! Assim sempre foi e todas as vezes que tentei mudar, foi uma catástrofe... 

Claro que vivendo numa sociedade diurna, quando necessário, me adapto, mas logo volto às minhas horas noturnas. Minha mente pensa mais rápido e com mais lucidez na madrugada. Me sinto mais à vontade, assim é, provavelmente, assim sempre será. 

E por que to escrevendo isso? Totalmente ao acaso, começou a tocar num vídeo que assistia, a música Bittersweet Symphony! Aí fui ouvir o disco Urban Hymns do Verve, há mais de uma década que eu não o escutava... Voltei no tempo, me senti em Recife em fins dos anos 90... Fiquei lá por algum tempo... Um tempo em que eu era um pós-adolescente ouvindo música na madrugada sem as normas e regras da moderna vida adulta...

Ah... e sobre o soneto do título? No sonnet! A música que inspirou esse post...E como eu escutei lá.. e como eu a escutei essa madrugada!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Um top 5 de George Harrison


É difícil, pra mim, fazer um top - 5 das músicas George Harrison. Não me recordo de uma canção sua que eu não goste e nem consigo listar as 20 que mais gosto. Mas hoje guardei um momento para destacar as cinco que mais escutei nos últimos anos (assim foi bem mais fácil).

Your Love is Forever - Redescobri essa música a partir de um cover de uma dupla desconhecida, prova que vale à pena garimpar artistas desconhecidos. Percebi aquela obra-prima pouco conhecida.





All Things Must Pass - Essa é uma das músicas que mais escutei na vida. Se eu preciso superar algum problema, começa aqui! Bela melodia, lindo arranjo, excelente interpretação e uma letra que acalma a alma.
 


Dear One - Essa letra mostra que a música pop pode falar de amor, mas em outra dimensão... E que introdução, George!




The Inner Light - Única dos Beatles (que na verdade é só dele mesmo, John e Paul colocaram uns vocais e Ringo nem tocou). Para mim, a prova que Harrison tava muito à frente na popularização da música indiana na Europa do que qualquer outro artista. A letra? See all without looking...




Handle With Care - Essa é da segunda melhor banda que Harrison fez parte. É uma daquelas que toda vez que toca, surge um sorriso no rosto e uma batida no pé! Baby you are adorable, handle me with care! 
 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

2014 - Enfim, o fim de 2013


E finalmente 2013 acabou! Bom, eu sei que estamos próximos do fim de 2014, mas como disse antes, 2013 não terminaria no último dia do ano passado, ele termina agora.

A jornada foi intensa, cheia de surpresas, abnegações, redescobertas, readaptações... Aprendi a viver fora do Brasil, mas queria mesmo era voltar, e voltei. Não me transformei num estrangeiro e tão pouco fiquei “mais brasileiro”. Eu me tornei mais Sidclay. 

Porém, a jornada interior é a melhor e a mais difícil de todas. Acredito que ela aconteceu no momento certo. Não sou mais um jovenzinho aventureiro descobrindo o mundo e nem ainda um idoso fazendo a retrospectiva da sua vida. O que aprendi só foi possível agora e o resultado será aplicado no que virá. 

No frio e isolamento do Norte, eu finalmente me encontrei. E despido de vaidade, posso dizer: eu gostei muito de mim. 

Viver sozinho foi um grande – e doloroso – (re)aprendizado. Após centenas de horas completamente só e dependendo de mim mesmo, me senti liberto. E agora posso me aprisionar apenas se – e até quando - eu quiser. Não conheço uma liberdade melhor que a da própria mente!

Saí da zona de conforto em janeiro do 2013 ao som de John Lennon (Watching The Wheels) e terminei dezembro de 2014 ao som de Paul McCartney (I Want To Come Home) – algumas coisas nunca mudam, como o meu gosto musical.. Mas enfim... encerrou-se uma jornada.

Top 10 - Músicas de 2014

2014 foi um dos anos com mais altos e baixos da minha vida, acho que por isso as músicas são tão distintas em sua "atmosfera". Um top 10 carregado na neve.

Rapaz Latino Americano - Felipe Cazaux - Sem dúvida a música que mais ouvi em 2014, numa versão blues impressionante! A letra diz tudo...

The Blues You Sang - James Yorkston - A melhor explicação do que foi Québec na primeira metade do ano.

We Have Been Lost - Stephanie Dosen - A voz sem força (mas com muita emoção) que me acompanhou a maior parte do ano e uma música tão rara que nem no youtube se acha.

A Ton Étoile - Noir Désir - E finalmente consegui "aceitar" uma banda de rock francesa.

Wherever I May Roam - Metallica - Depois de "velho", Metallica começou a fazer parte da minha vida e essa música é a melhor explicação do que é viver "por aí"...

Wonderous Stories - Yes - Para mim, o show do ano. Eu vi o Yes e essa música sintetiza o momento.

Fala - Secos & Molhados - A melhor representação do que é ficar calado quando não se pode ou não se quer falar.

Shaft - Isaac Hayes - E uma cidade desconhecida no norte do Canadá (Chibougamau) será eternamente lembrada toda vez que eu ouvir essa música.

Louder Than Words - Pink Floyd - E quando menos eu esperava, algo "novo" e belo do Pink Floyd, melhor representação do que foi meu segundo semestre.

(I Want to) Come Home) - Paul McCartney - 2013 (isso mesmo), acabou com a melhor letra de música que explica o que foram esses dois últimos anos. Muito obrigado por explicar tudo, Paul!










E algumas menções honrosas: 

Crimson and Clover - Tommy James & The Shondells
American Pie - Don McLean
Satellites - Doves


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Outro inverno, sempre a mesma estação

Sempre sou perguntado sobre o inverno canadense e como é viver seis meses sob a neve e temperaturas negativas. Agora que entro no meu terceiro inverno, voilá l'hiver quebécois!

Começando - o mês de outubro é bem interessante, as folhas caem deixando a cidade com uma beleza impressionante. Faz frio, mas temperaturas positivas, um casaco resolve. E ainda é possível observar o espetáculo das cores na paisagem ... Eu poderia viver toda a minha vida no outono, eu acho. 

Primeira parte (novembro e dezembro) - as primeiras neves caem. O mundo colorido fica branco quase que de repente. Em meio ao aprender a conviver com a neve vem também a vida com pouca luz. O sol se vai muito cedo, em dezembro, às quatro da tarde já escurece, sem contar que também nasce tarde, quase sete da manhã. Se o dia for nublado, então... A sensação de fadiga é constante, mas a experiência ainda é agradável. 


Segunda parte (janeiro e fevereiro) - o ápice do frio, em Québec temos temperaturas abaixo de -30ºC! Acredite, esse frio dói no seu corpo! Os dias vão gradativamente ficando menos curtos, mas a quantidade de neve que ainda cai é desoladora! Percebe-se como é difícil viver sem cores. Pois é, enquanto muitos pensam no frio, eu sentia falta de ver cores. O cinza, marrom e branco da cidade me afetavam bastante. Em meio a isso, tudo funciona perfeitamente na cidade.

 
Terceira parte (março e abril) - o frio diminui, o que não é lá grande coisa porque ainda continuamos entre -5ºC e -20ºC. A imensidão branca está mais forte e com as várias camadas de neve socada ao longo dos meses... Começa-se a pensar na primavera que, em teoria, já chegou. A irritação é visível a cada vez que neva... O sentimento de "quero sair dessa merda branca" é enorme. Fins de abril, o verde começa a aparecer.

Terminando - Para quem vive (e sobrevive) a um inverno assim tão longo, sente-se uma grande felicidade de rever o verde, as flores e poder guardar aquele casaco e botas que estiveram colados ao seu corpo nos últimos meses. A primavera de fato começa em maio.

E entre junho e setembro se vive meses muito agradáveis... É quase a perfeição. Mas essa perfeição só é de fato apreciada com os meses enterrados no branco.

Estou iniciando o meu terceiro inverno e posso dizer: Nunca mais! Estou arrumando as malas pra voltar pro sertão, lá onde calor insuportável me espera... Como nunca estamos satisfeito, irei reclamar e até sentir falta de Québec, mas assim somos.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Acabando no rio sem fim

Quantas pessoas realmente tem a oportunidade, a necessidade ou até mesmo a vontade de terminar alguma coisa? Essa é a pergunta que fiquei me fazendo depois de escutar The Endless River do Pink Floyd.

Um lançamento que à princípio me parecia só um caça-níquel - ainda acho - agora vejo também como uma atitude madura de quem chega a um certo ponto da vida, pensa no que passou, liga o "foda-se" e faz o que quer.

David Gilmour e Nick Mason nos entrega algo melancólico, às vezes uma repetição disfarçada de homenagem, as sobras... Alguns lampejos dos discos anteriores estão ali, na verdade é oposto do fim apoteótico da turnê barulhenta (em todos os sentidos) do Pulse em 1995.

Me faz pensar que  mais de trinta anos sem Roger Waters deixou o Pink Floyd sem palavras... A ironia de tudo está em uma mulher escrever a última letra, da última música, do último disco, de uma banda que já teve um dos melhores letristas do mundo e um público muito mais masculino que feminino. O olhar feminino capturou a atmosfera, escutando Louder Than Words, quem conhece bem o Pink Floyd, vai entender.

O disco com cara de inacabado, acaba. Encerra uma etapa na vida de Dave e Nick que, em suas jornadas, perderam Syd Barrett para a loucura, Roger Waters para a arrogância e Rick Wright para a morte.

Fiquei pensando o que tenho pra acabar e quem ficou pelo caminho, o que ainda vou começar e quem estará no caminho. Aprendi mais uma com o Pink Floyd, encerre o que começou, mesmo que leve uns 20 anos...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Para a minha mocinha

No dia que você completa dois anos, eu não estarei aí para te colocar no colo como fiz em 2012 e nem passar o dia contigo como fizemos em 2013. Por motivos que não dependeram de mim, tive que ficar longe... te ver pela tela do computador e memorizar todos os seus vídeos e fotos é o que me resta pra hoje.

Mas não é dia pra ficar triste por mais que esse seja o sentimento dominante por não estar com você. Hoje eu vou celebrar a sua chegada ao mundo aqui em meio a pessoas estranhas e com os livros. Nos momentos mais difíceis, nas horas mais complicadas, é o seu sorriso que vejo... Você é o troféu do fim dessa jornada. E tenho que fazer valer à pena. Hoje celebro a pessoa que deu um sentido à minha vida.

Na solidão e no frio do norte, eu não fiquei louco (ainda). Eu aprendi algumas coisas interessantes, técnicas de pesquisa, teorias e ideias diferentes do que temos no Brasil. Conheci pessoas de vários lugares do mundo e um pouco de suas culturas. Fui a lugares bem diferentes como a Floresta Boreal, convivi com a neve e até vi baleias de perto, elas estavam nadando tranquilamente. Mas de tudo isso, o que papai realmente aprendeu é que não existe um dia melhor do que os que passo com você, não há nada mais bonito do que seu sorriso, não há som mais belo que a sua voz, nem cheiro mais gostoso que seu cangote, não há imagem mais confortante que te ver brincando... Não há experiência melhor que a de te ver crescendo... E não há alegria maior que saber que você cresce saudável.

Em algumas semanas nos veremos e aí ninguém e nada mais separa a gente.
Feliz aniversário minha mocinha. Papai te ama!



terça-feira, 30 de setembro de 2014

Só um amigo do orkut



A efemeridade de algumas relações é extremamente interessante. Algumas pessoas que em meados da década passada tinham uma grande importância na minha vida, hoje eram "apenas" um amigo no orkut... 


Com o fim definitivo do orkut, eu decidi dar uma olhada por lá... Eu o checava quase diariamente entre 2004 e 2010, minha última atualização foi de dezembro de 2011. Não vou fazer uma lista saudosa de coisas que ali vi e vivi como comunidades, scraps, testemunhos, polêmicas e tudo mais porque me chamou atenção mesmo foi a lista dos amigos! 


Percebi como algumas pessoas ficam pra trás nas nossas vidas, aquele colega de trabalho, de faculdade, da internet (entre 1997 e 2001 eu frequentava as salas de bate-papo do Uol e conheci muita gente legal lá, inclusive a minha mulher), ex-alunos, etc. Tinha gente que eu não conseguia lembrar de onde era. Encontrei também pessoas que havia perdido o contato (porque não consultava mais o orkut), mas queria ter de volta e foi só colocar no facebook e achei! 


Eu não me considero uma pessoas saudosista... Posso lembrar com carinho da minha infância, com um pouco de receio da minha adolescência, com orgulho dos meus vinte e poucos anos... Mas o melhor é agora... Fiquei imaginando que eu também deveria representar apenas um amigo no orkut de alguém. Confesso que é um pensamento desagradável, mas é a minha última lembrança do orkut! Sem lamentos, a vida segue...

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