segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O (meu) som ao redor

Enfim assisti O som ao redor, filme que vem sendo elogiado por muitos e agora está na lista dos possíveis indicados ao Oscar, algo que o cinema brasileiro esquizofrenicamente busca como forma de validar sua qualidade. Mas não foi por isso que o vi e sim por falar/ser de Recife, aquela antiga cidade velha.
Nos seus primeiros cinco minutos, me transportei para lá. Nada era novidade para mim, as casas, as pessoas andando, o barulho, os muros, os prédios altos... Uma paisagem hostil para quem anda na rua. Uma prisão em cada residência. Eu cresci numa outra realidade (subúrbio de Olinda), mas nos últimos 10 anos que morei em Recife, pude transitar nas residências de classe média.
A vida daquelas pessoas (personagens), mesmo com um potencial enorme para crescer e expandir como ser humano, parece estanque, às vezes até estéril. Os azulejos nos corredores dos prédios sem vida, os pequenos ambientes destinados às empregadas domésticas e, principalmente, os apartamentos sem privacidades onde se escuta tudo que acontece lá fora são o ambiente "perfeito". Há pessoas se esforçam pra comprar um imóvel como esses e ter uma vida como daqueles personagens. É o sonho de muitos. E se alguém sonha com uma vida daquelas é porque de fato tem uma muito ruim, e aqui não falo de condição financeira, apenas de como vivemos...
Vendo o filme, eu me lembrei muito da minha vida adulta em Recife. Trabalhando e sendo "cobrado" (principalmente por mim mesmo) pra ser de classe média, comprar um apartamento, um carro, pagar prestações e passar a maior parte da minha vida em frente a uma TV esperando a morte chegar (como diria Raul). Escolhi sair de Recife, negar até certo ponto esses valores e buscar evitar azona de conforto.

Ao ver o FIM na tela, senti uma alegria por poder escutar o meu sotaque; de reconhecer nos personagens pessoas com quem convivi e até a mim mesmo. Mas, acima de tudo, um alívio por não fazer parte daquele contexto. Sou de Recife, mas sinto que não pertenço mais a Recife. Meu som ao redor agora é outro... não necessariamente melhor, mas para mim mais interessante. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Comic con Montreal 2013

Desde que alguém me disse que eu era um nerd, fiquei pensando se isso seria verdade. Se sou ou não, pouco importa pra mim. Mas algumas coisas de nerd eu realmente tenho. E uma delas era a vontade de ir à Comic Con. Na impossibilidade financeira de chegar em San Diego, me contentei com a de Montreal.
Lá estavam centenas pessoas fantasiadas (ops... com Cosplay) de vários personagens, alguns muito bem feitos e outros engraçadamente ridículos; expositores de gibis (ops... comic books); vendedores de bonecos (ops... action figures), camisas e souveniers de todos os tipos. Exposição das mais variadas como um DeLorean; os selos canadenses do Superman e os novos jogos do Play Station, além de dezenas de estandes com tudo que se pode imaginar de cultura nerd. Um paraíso do consumo!

E como tudo se consome, o que mais me chamou atenção foi a venda de celebridades. Uma venda quase literal, um produto imediato e, aparentemente, inesgotável. Afinal, quantos autógrafos e quantas fotos uma pessoa pode proporcionar?

Via-se estandes com nome de artistas, o preço do autógrafo (!) e da foto com ele(a) (!!!). Por CDN$45 ou CDN$65 era possível ter um autógrafo de Christoffer Lloyd (Doc Brown de De volta para o futuro), Lou Ferrigno (o Hulk da telesérie) ou tantos outros que nem conhecia. Estavam lá sorridentes para quem quisesse "comprar" alguns minutos em sua companhia.

No meio de todos, me chamou atenção a Gillian Anderson (Dana Scully da série Arquivo X), não só pela sua beleza incomum, mas pelo seu total desconforto com a situação. Visivelmente deslocada e sem saber muito o que fazer, dava sorrisos amarelos enquanto ouvia elogios dos fãs. Talvez pensando em uma carreira pela frente, ali parecia o início do fim ou uma sobrevida, como George Takei que nunca fez nada além das péssimas atuações como Sulu em Star Trek e hoje vive desse passado. Afinal, Mrs. Anderson, vender autógrafos para seus fãs deve ser algo realmente incômodo. Um autógrafo deve ser algo conseguido com uma história de astúcia ou acaso e não uma longa fila e algumas dezenas de dólares. Ainda bem que não temos isso no Brasil!

O melhor momento para mim foi ver um debilitado David Prowse, o cara que vestia a roupa de Darth Vader, andando com dificuldade pelos corredores do evento e sendo aplaudido. Na hipérbole do consumo nerd, o melhor momento foi de graça (para ele e para todos os outros)!


 Ah, como um nerd, comi shawarma:

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Os muros

-        Olha lá, dá pra ver tudo que as pessoas estão fazendo dentro daquela casa.
-        É mesmo, estranho.
-        No Brasil, as casas são assim?
-        Não, normalmente não conseguimos ver dentro porque há um muro.
-        Como assim, todas as casas tem muros?
-        Sim.
-        Então quando você anda na calçada...
-        Sim, somos nós, as calçadas e os muros.
-        Deve ser estranho.
-        Na verdade nem é, nos acostumamos.
-        E tem muro entre os vizinhos?
-        Claro!
-        Então o que vocês vêem pela janela?
-        O muro.
-        E se tiver um terraço.
-        Continuamos a ver só o muro.
-        Então é como ficar preso?
-        Talvez, e normalmente em cima do muro tem cercas eletrificadas ou apena alguma coisa pontiaguda pra impedir que alguém pule o muro.
-        É sério?
-        Sim, normalmente as ruas no Brasil não são como essa, não ficamos assim (tranquilamente) nas ruas. Até para pegar o carro, olhamos bem antes de ir em direção a ele.
-        Deve ser difícil morar num lugar assim.
-        Sim, por isso que mudei de cidade, onde moro agora não é tanto assim, mas a maioria das casas tem muros lá.
-        Estranho.
-        É.
-        ...
-        E há pessoas que preferem morar em prédios com muros bem altos porque acham mais seguros.
-        E como fazem pra entrar?
-        Normalmente tem uma pessoa que trabalha que se chama porteiro, ele abre a porta pra você quando chega.
-        E como ele sabe todas as pessoas que moram no prédio? É seguro?
-        É, recentemente há prédios com duas entradas, depois de passar por uma porta, você ainda tem que passar por outra...
-        Ah...
-        É, mas onde moro não é tanto assim.
-        ...
-        ...
-        Mas há esperança disso melhorar?
-        Acho que não... O Brasil de hoje é pior que vinte anos atrás em relação à segurança
-        Ah?!... É?!
-        É!
-        ...
-        ...
-        O ônibus tá demorando?
-        Na verdade não, pelo horário, ele chega em 3 minutos...
-        Tá...


Obs: o ônibus chegou em 3 minutos


Conversa travada com uma francesa na esquina da Avenida Preston com a Rua Sheppard em Québec; em frente à uma casa normal; à noite; em uma parada de ônibus com mais duas pessoas e com um sentimento de segurança nunca sentido no Brasil. 

sábado, 31 de agosto de 2013

Todos gostam, menos eu - Top 5 (parte 2)

The Doors

Eu "deveria" gostar do Doors (mistura de jazz e rock, letras inspiradas, um ícone pop, foram dos anos 60...) Mas não dá... As performances "masturbacionais" de Morrison e o teclado chato de Ray Manzarek me aborrecem. Nunca consegui ouvir um disco do começo ao fim, mesmo que algumas músicas eu ache fantásticas (Riders on the storms, por exemplo). Mas sempre fico imaginando como Light My Fire seria melhor sem aquele teclado no meio...


Radiohead

Tido por muitos (inclusive por mim) como a última banda que apresentou algo novo, essa simplesmente não tolero (para desgosto do meu irmão)! Aliás, The Bends e Ok Computer são discaços que vez por outra escuto. Mas o resto, pra mim é resto. Não gosto do vocal eternamente chorado de Thom Yorke e as músicas auto-indulgente, com "cara" de experimentais. Pra mim, ouvir um disco deles (com exceção dos já citados) é tão torturante como É o Tchan ou Latino!

Djavan

Letristas habilidoso, compositor excelente e cantor com estilo próprio, sem dúvida! Para mim, apenas uma lembrança de quando comecei a ouvir MPB nos anos 90 e sua obra me impressionou à princípio. Após algumas audições fiquei com a  impressão - maldosa é claro - de cantor de barzinho. Hoje, sua voz me causa indiferença, imagina sua música.

U2 (dos anos 80)

Relutei bastante em colocar o U2 aqui. Mas a completa adoração dos discos BoyWar, The Unforgetable Fire e The Joshua Tree e o fato de eu nem conseguir ouvir um deles foi o suficiente. No entanto, Achtung Baby, Zooropa, Pop e All That You Can't Leave Behind eu adoro. Essa é uma banda de dois momentos bem distintos, eu prefiro o segundo. 

Los Hermanos


A última vez que no Brasil se viu uma banda com grande alcance de público, mas mantendo um nível musical consideravelmente bom. A maior qualidade talvez seja seu maior problema. Se tivessem surgido anos antes, passariam batido entre a Legião Urbana, Paralamas, Lulu Santos, Cazua e Titãs. Mas na mediocridade do rock do início do século XXI foram alçados a ícones e representantes de uma geração. Para mim, ficou um disco razoável (O bloco do eusozinho) e muito barulho... por falta de opção!


Para a parte 1, aqui

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Nenhum lugar, lugar nenhum

Quando fiz 25 anos eu "modifiquei" a letra da música À Palo Seco para “tenho 25 anos de sonho e de sangue e de América do Sul e mesmo com esse destino um tango argentino não vai melhor que um blues”... Era a verdade!
Eu não me encaixava na América do Sul. Mesmo gostando e admirando muita coisa em relação à sua cultura, era a Europa (mais especificamente a Inglaterra) que me chamava atenção. A música, o idioma, o clima... eu me sentia fora do lugar. Cresci ouvindo o que não gostava, indo a lugares que não me identificava, fazendo coisas que não me satisfazia... como se eu tivesse num lugar que não pertencia...

Aos 35 anos percebo que realmente uma música dos Beatles, Pink Floyd, Muddy Waters ou R.E.M. me diz mais do que Paralamas, Legião Urbana, Alceu Valença ou Chico Buarque (mesmo que eu os admire). 
O frio, o céu cinza e até a porcaria da neve me deixam mais confortável que o sol e as temperaturas elevadíssimas de onde cresci e sempre vivi. Poderia pensar que em uma outra vida, habitei um lugar diferente ou poderia pensar que o poder da mídia me fez sentir atraído por uma cultura que não seria a minha.
Agora estou em um lugar que não é o onde cresci vendo (e ouvindo) e, mesmo assim, me sinto mais "confortável" do que no Brasil. E não me sinto em casa aqui, como não me sinto mais em casa no Brasil. Logo me lembrei de uma outra musica que diz "não sou brasileiro, não sou estrangeiro, eu não sou de nenhum lugar,sou de lugar nenhum " dos Titãs.


Ora, as duas músicas que citei aqui são brasileiras... que coincidência, que ironia, que contradição... 

Obsrvaão: as duas fotos foram tiradas do mesmo local (Université Laval) com um intervalo de 7 meses em 2013

domingo, 11 de agosto de 2013

Paternidade, ano 01

A mãe saiu e ela ficou chorosa e eu ali sem saber realmente o que fazer, estávamos sós, ninguém pra pedir ajuda ou sugestão...
Então a peguei nos braços e tentei fazer um afago, ela não reagiu; tentei conversar, ela nem me olhou; tentei movimentá-la de baixo para cima como normalmente fazemos com os bebês, não funciounou... Fiquei em pé – ela reagiu, parou por um instante de chorar, mas voltou em seguida.
Rapidamente pensei em música e instintivamente coloquei Dire Straitis, disco Brother In Arms, quarta música: Why Worry... A longa introdução dedilhada na guitarra e meus desajeitados movimentos simulando uma dança a fizeram diminuir o choro, pareceria que estava funcionando, então continuei...
Ela pousou suas duas pequenas mãos em meu peito e ficou olhando fixamente para mim. Sem saber o que fazer, eu só olhava para ela... ela então começou a mexer os dedinhos em um movimento de abrir e fechar as mãos (não sei o que era para ela, para mim era o melhor carinho do mundo). A música chegava em sua metade enquanto ficávamos ali nos olhando e ela ainda estava com um jeito choroso...
Ela então deitou a cabecinha no meu peito e suspirou. Peguei em sua mão e continuei a péssima simulação de dança, beijei longamente sua cabeça e ela então me olhou e riu... e eu... chorei... a música terminou, mas  aquele momento dura até agora...



sexta-feira, 26 de julho de 2013

Entre consumo, consumo e consumo

Consumimos tanto que parece que esse é apenas o sentido de se viver: trabalhar, ter dinheiro, comprar coisas e depois trabalhar... um ciclo que se autossustenta e nos conforta. Quem quer algo precisa comprar (ou roubar) e as novidades pulam em nossas caras. Então foi a TV, a TV à cores, a TV grande, Plasma, LCD, LED, 3D... Pra cada coisa, há uma “evolução” tecnológica e de usos.
Em busca do consumo infinito, nem pedestres podemos ser. Afinal, carros são itens de verdadeira adoração e as cidades cada vez mais cheias deles e de pessoas que reclamam do preço do combustível, tráfico e péssima educação dos motoristas, problemas que não existiriam se tivessemos menos carros.
Isso me chamou atenção ao visitar Miami, talvez a cidade mais consumista dos EUA. Lá, praticamente não existe calçadas!! Se queres andar, só em locais predeterminados onde haverá lojas para você consumir... Tentei fazer o tipo de turismo que gosto, entre pessoas normais, usando transporte público e indo à lugares onde os residentes gostam de ir... Foi em vão! 
O que vi foi uma corrida frenética para adquirir algo que você nem sabia que existia até aquele momento. Pessoas que ficam a maior parte do tempo dentro de carros e os Malls! Consome-se eletrônicos, comidas, roupas, praias, sonhos... O conforto está diretamente ligado ao quanto você pode comprar...

E consumindo, você vai vivendo, até ficar idoso e ir jogar dominó no shopping (com ar condicionado e  fast foot). Aliás, foi essa cena que presenciei duas vezes – em horários e dias distintos – mas com as mesmas pessoas. Aqueles idosos consumiram tanto, que aparentemente só sabem curtir a vida dentro de um shopping...

sábado, 13 de julho de 2013

O que é Rock'N"Roll brasileiro

Há quem ache que não existe um rock’n’roll brasileiro. Discordo! E no dia do rock eu digo que pra mim é:


o pioneirismo de Cely Campelo; o krig-ha de Raul Seixas; a alma de Tim Maia; o sarcasmos d’Ultraje à Rigor; as fusões de Gilberto Gil; a criatividade d’Os Mutantes; o punk dos Inocentes e Replicantes; as harmonias do 14 Bis; a dureza da Plebe Rude; a entrega de Cazuza; a inventividade dos Novos Baianos; a jovem guarda de Erasmos; Wanderléa e Roberto; o clube de Milton Nascimento & Lô Borges; a leveza de Marina; o ostracismo forçado de Wilson Simonal; a longevidade dos Paralamas do Sucesso; as melodias do Kid Abelha; a lucidez de Belchior; o setentismo d`A Bolha e d’O Terço; a mística de Zé Ramalho; a podrera dos Ratos de Porão; os covers de Renato e Seus Blue Caps e The Fevers, a chatice dos Los Hermanos; o lirismo de Nando Reis; o manguebeat do Mundo Livre S/A; a raiva do Ira!; o escracho do João Penca e seus Miquinhos Amestrados; o xote dos Raimundos; as maluquices de Tom Zé; a ruralidade de Sá, Rodrix & Guarabira; o pop de Lulu Santos; a teatralidade da Blitz; o swing de Jorge Ben; a vanguarda dos Secos & Molhados; a visceralidade de Cássia Eller; o peso do Made In Brazil; as loucuras de Lobão; o ressuscitar do Capital Inicial; a pegada do Barão Vermelho; o retrô do Cachorro Grande; as reinvenções de Caetano; a emoção da Legião Urbana; as várias faces dos Titãs; o pé no chão d’O Rappa; o ativismo do Planet Hemp; a alvorada do RPM; o concreto de Arnaldo Antunes; a simplicidade do Camisa de Vênus; as letras dos Engenheiros do Hawaii; o reggaerock do Skank; a sinceridade de Fagner; o psicodelismo da Ave Sangria; o sotaque de Rithie; a revolução de Chico Science & Nação Zumbi; o trash do Sepultura e a genialidade de Rita Lee!

Para o que é Rock'N'Roll, aqui

domingo, 7 de julho de 2013

O iraniano, o estadunidense e o brasileiro?

Uma das pessoas mais interessantes que conheci em Québec foi um iraniano. Extremamente amável, atencioso e inteligente. Sempre me perguntava sobre os países ocidentais e de como ele é curioso em conhecê-los. Falava-me entusiasmado da sua religião e de como nós, aparentemente, não entendíamos algumas coisas. Sempre me perguntava sobre o cristianismo com um misto de surpresa e respeito. Tentava entender o que representa Jesus Cristo para “nós” ocidentais.
Mas ele me falou também da frustração de quando teve um trabalho aprovado em um congresso na França, comprou passagens, reservou hotel, mas teve seu visto negado! O motivo: a política externa de seu país, provavelmente. Desabafou como aquilo foi um dos momentos mais tristes da sua vida. Ser rejeitado pelas ações do seu país é duro.

No dia do meu regresso, recebi um telefone de um americano com quem costumava conversar por horas sobre política externa e nossas impressões de Québec. Sabendo que poderia ser a última vez que conversaríamos, ele foi muito franco em como se sentia sendo estadunidense, como seu país é complexo e cheio de conflitos internos e como ele condena as ações de seus governos.
Ao mesmo tempo que ele me dizia isso, percebia uma misturava de revolta e frustração por ser tratado “como americano”. Dizia-me como se esforçava para conhecer as pessoas, ser amigável e mostrar como ele era. Mas “o peso de ser americano” era mais forte e que ele era discriminado por isso. Eu lhe disse: “muita gente odeia seu país” e ele me respondeu “eu sou uma dessas pessoas” e emendou “nunca me esforcei tanto para ser aceito como sou, mas simplesmente não funciona”. Para ele, havia a sensação de ser o alvo de todas as críticas aos seus governos. 

 “Numa inversão de papéis” (e aqui estou sendo irônico), o iraniano se deslumbrou com o capitalismo canadense que tem nos EUA um dos seus principais representantes e comprou tudo que pôde das marcas famosas, enquanto o americano buscava se despir de toda uma vida preparada para ser consumista.

O iraniano e o estadunidense sofrem com uma imagem criada sobre seus países. Essas imagens soterram o que são individualmente e os deixam frustrados, marginalizados. E fiquei pensando, é a mesma coisa com os brasileiros?!?!

sábado, 18 de maio de 2013

Um caos anunciado ou A culpa não é da natureza


Os relatos sobre a grande chuva em Recife em 17 de maio tomaram conta das redes sociais, as pessoas postavam informações, fotos e sugestões para que outros não sofressem com os seus impactos. Uma solidariedade que não se vê normalmente no mundo real. Mas se a maneira de se comunicar é nova, o problema é tão antigo quanto o próprio Recife e aqui destaco dois pontos:

1 - Impressiona ver as pessoas discutindo o impacto da chuva sem nem mesmo questionar que seus impactos não são “culpa” da natureza. Ora, culpar a natureza apresentando números é, no mínimo, cretinice! O que aconteceu com Recife não é novidade! Sabemos que no passado isso ocorreu e no futuro vai continuar acontecendo se o Estado não atuar de maneira efetiva para minimar os impactos e
2 - chama atenção o poder público não alertar a população sobre o que vai acontecer. É possível prever esse tipo de chuva e alertar a população para que ela se prepare. Ao não fazer isso, você coloca as pessoas em risco de morte! Ou, no mínimo, transtornos e danos materiais. Precisamos criar uma cultura de prevenção.

Por fim, vejo que a situação tende a piorar. Infelizmente, estamos mais preocupados com o estádio da Copa do que com a qualidade de vida das pessoas (algumas até se divertem “contando vantagem” em como enfrentaram o problema com tanta “astúcia”); a grande imprensa que tanto bate em alguns temas, nesse apenas mostra os estragos sem análise e, por fim, estamos cada vez pior de governante, se antes tínhamos opções na oposição, hoje percebo um nivelamento em descompromisso com a população.

Agora, uma sugestão para quem vive em Recife, faça uma pesquisa com todas as gestões e suas ações para minimizar de maneira perene os impactos das chuvas na cidade! Verão que muitos ainda estão politicamente na ativa e ocupando cargos... Uma lástima!

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Entre amizades e emoções


Sentado na sala de espera do aeroporto Jean Lesage, ao mesmo tempo em que estou bastante feliz em retornar para casa, sinto também uma grande tristeza ao saber que algumas das pessoas com que convivi nos últimos meses talvez eu nunca mais veja! Despedir-me de cada um foi algo difícil e emotivo.
Quando cheguei a Québec, conhecia apenas uma pessoa que foi bem presente nos meses que aqui estive, mas na minha saída, quantas pessoas fantásticas tenho que deixar para trás. Vinicius de Morais já dizia “amigos a gente não faz, reconhece-os” e Simon & Garfunkel dizam que “amigos não se encontram como águas turbulentas sobre pontes”. De fato, é verdade. Ao pensar sobre as pessoas que conheci, percebi que a amizade é muito mais um sentimento do que um conhecimento. Os amigos que aqui fiz, possuem comportamentos e interesses semelhantes aos amigos que tenho no Brasil. Fiquei feliz ao perceber que reconheço amigos pelo que sou e não pelo que posso oferecer. Além disso, os laços de amizades podem ser construídos rapidamente e nos deixar a sensação que vão durar pra sempre.

Então as refeições diárias em conjunto, partilhando tudo; os sorrisos coletivos; as conversas intermináveis; os jantares de sábado à noite; as preocupações com exames e trabalhos; as pausas para um chá; as impressões sobre Québec e sobre a vida e os passeios pela cidade estarão sempre nas lembranças.
Felizmente, a maturidade me fez dizer a cada um a sua importância para mim nesses dias. Então entre abraços, olhares saudosos e um pouco molhados pelas lágrimas e cumplicidade, saio de Québec (mesmo que temporariamente) com uma sensação estranha, uma tristeza pelo fim de um momento e a felicidade de voltar para casa.
Mas foi reconhecendo amigos no Canadá e sabendo que alguns nunca mais encontrarei, que passei a admirar ainda mais os amigos do Brasil. Aqueles que estão comigo desde a minha infância, da adolescência, da vida adulta. Eles estiveram presentes ao longo do tempo e sou feliz por poder sempre partilhar das suas presenças.
Mas acima de todos, poder voltar e reencontrar a minha melhor amiga - que ainda nem sabe bem o que é isso - me dá a sensação de ser uma pessoa de muita sorte. Mocinha, papai tá chegando...


sábado, 9 de março de 2013

Top 5 - Música & Lugar - Parte 1


Eu ainda tava sonolento, já tinha passado pela alfândega e me preparava pra esperar cinco horas pelo próximo vôo. Então tocava Raindrops Keep Falling on My Head enquanto eu andava pelas esteiras do aeroporto. Isso foi há quase dois meses atrás.
Estava andando em um dos shoppings de Québec quando a música começou a tocar e instintivamente lembrei daquela manhã de sábado no aeroporto de Toronto em todos os detalhes.

Percebi que algumas música, por mais que a gente as escute, estão atreladas a um lugar e um tempo. Demorei pra fazer a lista que segue porque nem sabia as músicas que me lembravam os lugares. Era preciso escutá-las e deixar a mente funcionar...

Hinchley Pond (Os Paralamas do Sucesso). Andava pelas ladeiras de Olinda lá pelos idos de 2005 ou 2006. Sempre fazia isso ouvindo música, mas de todas as que ouvi, essa tocou exatamente em um momento em que eu olhava o mar aparecendo acima de uma ladeira e pensava numa vida longe daquele lugar, a música exprime exatamente isso! É quando a vida parece ter trilha Sonora.

Thank You (Led Zeppelin). Essa sempre me lembra a praia de Boa Viagem lá pela metade dos anos 90. Eu estava descobrindo o Led, assim como estava descobrindo a zona sul de Recife (que para mim ainda era um mistério). Eu olhava aqueles prédios perto do mar e escutava “when the mountains crumble to the sea, there will still be you and me”. É assim até hoje.

No Surprise (Radiohead). Essa me lembra a fase em que eu descobria o computador e a internet em 98 e 99. Parecia que tudo combinava e, para mim, o disco Ok Computer acompanhou a minha iniciação no mundo virtual e No Surprise me lembra o quarto absurdamente quente em que eu vivia naquela época.

Por Perto (Pato Fú). Escutei essa música por acaso no metrô de São Paulo em 2009 e então comprei o disco e passei a ouvi-la sempre. “Num velho disco a vida se desfaz em poucos minutos. Pra onde aquele tempo te levou, também vou”. A trilha sonora daquele ano!

Vinalhaven Harbour (Stephanie Dosen). Em 2012 eu viajei muito, mas muito mesmo de ônibus. Trabalhei seis meses numa cidade (Jacobina-BA) distante quase 300 km e precisei fazer várias viagens de Petrolina a Recife (quase 800 km). Essa música ajudava a passar o tempo e, desde então, sempre me lembra as paisagens que eu via pela janela dos ônibus.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Brasil, difícil de entender, impossível de explicar (Top-5)


Estando longe do Brasil, tento em qualquer oportunidade “desestereotipar” o país. A tarefa é árdua e instigante, mas até o momento creio que tenho conseguido. Ao fim de cada conversa, sempre percebo que alguém ficou satisfeito com minhas colocações e dizem ver o Brasil de uma maneira diferente.

Entretanto, desde que cheguei ao Canadá, há menos de dois meses, simplesmente não consigo explicar:

  • Que um pastor disse numa entrevista que ama os homossexuais como ama os assassinos e milhões de pessoas concordaram;
  • que pessoas em um país dito democrático fazem passeatas contra uma mulher que critica um governo;
  • que retorna à presidência do senado uma pessoa que de lá saiu por graves denúncias de corrupção;
  • que milhares de pessoas estão indignadas com o aumento da gasolina, mas esse mesmo contingente pouco se manifesta contra os precários transportes públicos e
  • o porquê de ao mesmo tempo que tudo isso acontece, um reality show chama mais atenção que o noticiário...


Brasil, difícil de entender, impossível de explicar... 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Carnaval muito abaixo de zero!


Para nós brasileiros, o carnaval é uma coisa nossa. Ninguém pode fazer. É algo até sagrado, mesmo que seja profano para outros. Tem que enlouquecer, beber, cair, levantar, gritar.. Tem que ter frevo, samba, marchinhas... Tem que ter muito álcool, água, quem sabe até lama. É o momento de “despirocar”. Eu não sou lá muito carnavalesco, normalmente fujo pra um lugar mais calmo.

Esse ano pensei que havia fugido definitivamente do Carnaval. De fato, fugi do carnaval brasileiro e fui cair no Carnaval de Quebec!


Tudo começando com um frio de -200C. É isso mesmo! Um tobogã de gelo na entrada, um concurso de escultura no gelo (cada um recebe um bloco de uns 2 m2 pra fazer o que quiser), um castelo de gelo colorido por dentrro tocando música eletrônica a todo volume. Tudo é de gelo, aliás, o gelo não é molhado... Você toca nele e sua mão não fica molhada... Há tanto gelo pelo chão que as crianças e os bêbedos ficam correndo e deslizando com os pés! E como tem criança. O que mais me impressionou, entretanto, foram as jacuzis com água aquecida e pessoas tomando banho de sunga e biquine! Pra aguentar mesmo o frio só se protegentendo e bebendo Caribou – a bebida local.

A propaganda diz que o Carnaval de Québec vem celebrar o inverno! De fato, é uma bela celebração... Mas se eu já fugia do carnaval brasileiro, agora vou fugir do carnaval quebequense também. Afinal a diferença de 500C faz toda diferenteça!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Ei Phd, volta pro primário...


Vim fazer um PhD e fui parar no primário! É bem assim que tenho me sentido nas últimas duas semanas...

Por conta da escolha de fazer doutorado no Canadá, preciso aprender a falar francês. Aprendi a falar português, claro, mas as primeiras palavras chegaram ao meu cérebro nos longínquos anos 70. De modo que sem um processo de hipnose não vou lembrar como. Desenrolo inglês, mas nem lembro a primeira vez que comecei a falar, provavelmente era alguma letra de música nos anos 80.

Então eu não sei como aprender um idioma. É isso! Já vi filmes (os franceses são malucos, mas ótimos), ouvi música (rock em francês não rola) e estou prestando atenção no que as pessoas falam. Mas nas primeiras aulas – nível elementar – lembrei do meu ensino primário (atualmente com um nome mais pomposo – Ensino Fundamental I), quando aprendíamos a conjugar os verbos “ser”e “estar” nas aulas de português ou o verbo “to be” nas aulas de inglês. Todo mundo já passou por isso...

É uma sensação estranha, fico me perguntando Por que não fui pra Portugal? EUA? Inglaterra? Até mesmo aqui no Canadá, com tantos lugares falando inglês, vim pro único que não fala! Em Quebec deve se falar mais francês que na própria França! Todo mundo fala, parece até fácil... Quem sabe eu aprendo no primário!

Oh God, Oh Deus... Non... Mon Dieu!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Praticando o desapego ou Just Let It go


Na belíssima música Watching The Wheels, John Lennon canta “as pessoas dizem que sou louco, fazendo o que estou fazendo e me dão todo tipo de alerta para me salvar da ruína”. Foi bem assim que me senti nos dias que antecederam minha viagem.

Afinal, deixei uma vida confortável para ir a um país gelado, com idioma que não conheço para escrever uma tese. De fato, quando penso assim, me acho um louco também.

Saí da minha zona de conforto com minhas coleção de CD’s e DVD’s, livros, minha TV enorme, o home theater, o computador, o bluy-ray e uma bicicleta que foi meu hobby nos últimos meses. Desmanchei meu lar! Mas acho que o conforto nos deixa anestesiados e assim ficamos estagnados. Precisamos da pressão para crescer. Foi difícil encaixotar tudo, tirar as cordas do violão, vender o vidogame e cancelar a TV por assinatura. Agora estou em um quarto da residência universitária, confortável, é verdade, mas nem de longe se parece com o que tinha. Porém acredito que ninguém cresce como pessoa sentado num sofá em frente a uma televisão.

A paisagem que agora vejo pela janela não é mais uma ensolarada rua, mas toneladas de neve amontoada nas calçadas. Aqui não sou "O professor", sou mais um dos milhares de alunos. Troquei o conforto do ar condicionado no semiárido pelo aquecedor da zona temperada. Mas como dizia o sábio Lennon na música já citada “eu apenas tenho que deixar passar”. 

domingo, 30 de dezembro de 2012

2012 - O primeiro melhor ano da minha vida


2012 foi um ano tão bom, mas tão bom que tentei fazer um top 5 com o que melhor aconteceu e esse número era pouco...

Vejamos...

Vi o show que sempre quis, mas não poderia voltar no tempo. Felizmente, o tempo se renovou e Roger Waters tocando o The Wall em São Paulo foi o maior espetáculo do século XXI.
Presenciei o inimaginável para milhões de pessoas: Paul McCartney ao vivo em Recife! Mas não foi só isso, ele tocou no estádio da minha infância, do meu time! E um dos shows eu ainda tive a presença da minha família!
Esse mesmo time, o glorioso (pelo menos para sua torcida) Santa Cruz foi bicampeão pernambucano num jogo histórico contra seu maior rival (na casa do rival e no aniversário do rival)! Absoluto!
Fui aprovado no doutorado! Universidade Laval em Quebec, Canadá, em janeiro eu chego! Agora só falta aprender francês....
Fui patrono de uma das turmas que mais tenho carinho na minha vida acadêmica. E isso aconteceu depois de quase 4 anos distante (Grandes Administradores). Fui novamente patrono, dessa vez numa turma de Geografia, algo fantástico para quem leva a vida de docente a sério, além de ter sido professor homenageado dos maiores contestadores que conheci no curso de Geografia da UPE e também homenageado pela turma de História que lecionei em apenas um semestre, uma honra!
Tive uma das maiores alegrias no meu trabalho, vencemos uma eleição de forma impressionante! Vou ficar três anos fora, mas com uma sensação de dever cumprido.

Mas tudo isso que credenciava 2012 como um dos melhores anos da minha vida ficou pequeno. Em março eu recebi a notícia de que seria pai! Em julho soube que seria uma mocinha. Em novembro, ela chegou!
E a imagem da minha mocinha chegando ao mundo será inesquecível. 

2012 vai terminar em seus dias, mas será certamente o primeiro melhor ano da minha vida... 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Um Top 5 de 2012



Nas letras

O Som da Revolução – Rodrigo Meheb – A melhor leitura sobre música.
Nos bastidores do Pink Floyd – Mark Blake – Nunca li nada mais completo sobre o Floyd.
A Invenção do Nordeste e Outras Artes – Durval Muniz de Albuquerque Júnior – Com ele, o Nordeste começou a fazer sentido.
Sociedade e Espaço Geográfico no Brasil - Ruy Moreira – uma leitura geográfica do Brasil.
Invasão Britânica – Barry Miles – Livro muito agradável, leitura leve e toneladas de imagens.

Na imagem

O Pequeno Nicolas – Filme – Descobrindo o cinema francês com essa pérola.
Deep Space Nine- Série – Finalmente consegui terminar a série mais audaciosa de Star Trek.
Os Mercenários 2 – Filme – Diversão certa pra mim que cresci vendo filmes de ação dos anos 80.
O Cavaleiro das Trevas Ressurge – Filme – Os filmes de heróis se reinventam.
Memórias de Chumbo – Documentário – contundente documentário sobre futebol e ditadura no Brasil, Argentina, Chile e Uruguay, parabéns ESPN

Na música

Stop The Clocks – Noel Gallagher – tocou tanto que sonhava com ela.
Vinalheaven Harbour - Stephanie Dosen – do desconhecimento total para a música do ano.
Goin’ Back – Phil Collins – perfeita para quem, como eu, está se despedindo.
Why Not Smile – R.E.M. – A primeira música que Ana escutou. 
O Trem Azul - Lô Borges e Milton Nascimento - A "cara" de 2012. 

Pode ler também

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